MACHOS de salto alto
Durante os dias de semana, Carlos (nome fictício) tem uma vida invejável. O engenheiro é pai de duas adolescentes e casado com uma mulher apaixonada, 12 anos mais jovem. Mineiro de Formiga, no Centro-Oeste do Estado, Carlos é um profissional conceituado em Shangai, na China. Aos fins de semana, porém, o pai de família se transforma na Ana Bela. Ele não é homossexual, travesti nem drag queen. É apenas mais um crossdresser - pessoa que se veste com acessórios do sexo oposto - entre milhares espalhados pelo mundo.
"A sensação de me produzir como mulher é algo que não consigo definir. É uma mistura de prazer e relaxamento. Quando me monto, sinto-me relaxado e esqueço todas as preocupações do dia a dia da minha vida profissional", explica o mineiro, que prefere manter a identidade masculina preservada.
A
antropóloga Anna Paula Vencato, que fez uma tese de doutorado sobre
crossdresser, explica que existem muitas outras "Anas Belas" por trás de
homens engravatados do que se pode imaginar. Ela se dedicou a estudar
como os adeptos dessa prática se relacionam em sociedade e acabou
descobrindo que há mais crossdressers invisíveis do que visíveis.
"Existem aqueles que têm muito a perder, como emprego e família, caso
assumam. Por isso, muitos se contentam em usar apenas sutiã e calcinha
por baixo da roupa", diz.No Brasil, existe uma associação desde 1997, a Brazilian Crossdresser Club (BCC), que reúne 287 crossdressers, dentre eles 23 mineiros. De acordo com a antropóloga, não há um perfil definido de quem é adepto dessa prática, já que existem pessoas de todas as idades e classes sociais que mantêm essa preferência escondida. Mas, dentre os que assumem e têm coragem de sair na rua vestidos de mulher, é mais comum haver homens acima dos 35 anos, que já têm uma vida profissional bem definida e não correm o risco de perder os empregos caso sejam descobertos.
É grande também, segundo ela, o número de crossdressers casados. "A maior parte deles prefere ter uma distinção clara entre as duas vidas, a masculina e a feminina. Quando se montam, eles circulam em lugares relativamente protegidos. Não vão a jogos de futebol, mas a restaurantes e shoppings, que são ambientes mais tolerantes", afirma.
Reinaldo, 53, é crossdresser há 20 anos e agora preside a BCC. Ele, que prefere ser chamado de Kelly Neta, conta que, apesar de hoje ser divorciado, tinha a ajuda da mulher quando casado. "Fui casado durante 20 anos e minha mulher me ajudava a montar. As mulheres geralmente são as Supportive Opposite, que são aquelas que dão suporte a nós, crossdressers", afirma.
Kelly conta que a maioria das pessoas que se tornaram crossdressers começou a se atrair pela prática de maneiras parecidas. "Se perguntar a história de cada crossdresser, a maioria começou quando criança, roubando as roupas da mãe, e passou a vestir as da esposa depois de casada, como eu", conta.
Foi assim também que nasceu Cristina Camps, 48, a atual diretora do BCC, que se monta desde a adolescência. "A gente não pode imaginar uma criança de 3 anos se escondendo embaixo da cama da mãe para usar o batom dela. Eu fazia isso. Ao longo da vida, eu fui progredindo nesse gosto, até passar a me montar mulher por completo. Na verdade, o que eu sempre quis foi ter uma vida feminina", conta.
Com o passar do tempo, Cristina sentiu necessidade de montar mais vezes e, então, há cinco anos, teve que se assumir como crossdresser. Casado durante 15 anos, ele perdeu a esposa e vários amigos que não conseguiram aceitar o novo estilo de vida que ele escolheu. "Para mim, foi muito difícil assumir. Passei uma vida inteira com grandes conflitos internos porque não podia me externar. Tive grandes perdas quando tomei coragem, mas me realizei e hoje sou muito feliz", diz.
Fonte: O Tempo - Por TATIANA LAGÔA Publicado em 13 de novembro de 2010


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